Substâncias encontradas em invertebrado marinho por pesquisador do Instituto de Química da USP de São Carlos apresentam potencial para o tratamento de câncer de mama.
Reportagem: Valda Rocha
O que câncer de mama, leishmaniose e tuberculose tem em comum, além do fato de serem doenças potencialmente graves? Estas doenças são alvos de estudos com invertebrados marinhos, como esponjas e ascídias, que produzem substâncias potencialmente úteis para o tratamento destas enfermidades.
O pesquisador do Instituto de Química da Universidade de São Paulo – USP em São Carlos, Roberto Berlinck, há 15 anos se dedica a estudos relacionados com vida marinha, e encontrou nas esponjas e ascidias uma fonte importante de substâncias potencialmente úteis para o combate de doenças que acometem os seres humanos como o câncer de mama, por exemplo.
Tanto as esponjas com as ascídias são animais que se alimentam de matéria orgânica presente na água do mar. São considerados “filtros marinhos” que também são habitados por inúmeros microorganismos.
Berlinck afirma que ainda não se pode dizer se as substâncias que foram isoladas das esponjas e ascídias para a possível elaboração de novos medicamentos são gerados por esses animais marinhos ou pelos microrganismos que vivem associados à estes animais. O fato é que alguns de seus estudos apresentaram excelentes resultados com algumas das substâncias isoladas de esponjas e ascídias.
Um desses animais, a ascídia Didemnum granulatum, forneceu substâncias que foram licenciadas em patente conjunta com pesquisadores da Universidade de Colúmbia Britânica, onde Berlinck realizou seu pós-doutoramento. Um laboratório daquele país está realizando testes com as substâncias granulatimida e isogranulatimida, que podem vir a ser utilizadas em tratamento contra o câncer de mama e também de útero. “A primeira fase de testes in vitro foi concluída com resultados bastante positivos”, conta Berlinck.
Dados do Instituto Nacional do Câncer – INCA apontam que no Brasil o câncer de mama é responsável por 15% das mortes de câncer. Anualmente, cerca de 50 mil novos casos desse tipo de câncer são diagnosticados em território nacional. A incidência de câncer de colo de útero também é alta no país: cerca de 19 mil novos casos por ano. Por isso a busca por novos medicamentos para o tratamento é tão importante.
Outros animais também estão sendo analisados para a descoberta de potenciais medicamentos destinados a tratamento contra a tuberculose e a leishmaniose. “O medicamento utilizado no tratamento contra a leishmaniose, por exemplo, ainda é o mesmo descoberto na década de 40, cujos efeitos colaterais são inúmeros e freqüentes. Por isso a importância de pesquisas que possam minimizar reações adversas com novas formas de tratamento”, afirma o pesquisador.
A busca de novos medicamentos contra a leishmaniose é desenvolvida em parceria com o Instituto Adolfo Lutz em São Paulo. Já a coleta e identificação das esponjas e ascídias foi realizada em conjunto com pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Paraná. O pesquisador desenvolve suas pesquisas em colaboração ainda com pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar e do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas – CPQBA da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Berlinck explica que essa união de pesquisadores de várias instituições e áreas de conhecimento fortalece o valor das pesquisas que estão sendo desenvolvidas pelo seu grupo. Isso porque, além de químicos responsáveis pela identificação das substâncias retiradas dos extratos, há necessidade de biólogos, profissionais capazes de definir as espécies tanto das esponjas e ascídias, como também dos fungos e bactérias associados aos invertebrados marinhos.
Todo o material levantado pelas pesquisas faz parte do acervo brasileiro de linhagens de microbiologia que está disponível no CPQBA, considerado uma referência na área. Berlinck conta que existem cerca de 400 linhagens de microorganismos marinhos catalogadas pelo acervo, que compõe parte da Coleção Brasileira de Microorganismos de Ambiente e Indústria – CBMAI.
Trazer material de pesquisa do fundo do mar não é tarefa simples. Mas a equipe do Grupo da Química Orgânica de Produtos Marinhos da USP São Carlos, coordenado por Roberto Berlinck, aceitou o desafio e realizou mergulhos de natureza científica, no litoral Norte do Estado de São Paulo e no litoral da Bahia, durante os anos 90. As experiências positivas dessa aventura cientifica se somam a trabalhos de análise que às vezes levam a resultados inesperados. O pesquisador conta que em uma das coletas, por exemplo, o extrato de uma das esponjas tinha substâncias existentes em filtros solares, o que significa que na área onde foram retiradas as amostras havia uma grande concentração de protetor solar deixado na água por banhistas e foi absorvido pela esponja. “Já encontramos também amostra de uma esponja com substância presente em óleos industriais, óleo de motor. As agressões ao meio ambiente podem influenciar na vida da fauna e da flora, por vezes de maneira irreversível”, comenta.
Após a coleta, o material segue para o laboratório onde são extraídos com solventes orgânicos, que, depois de evaporados permitem a realização de análises químicas nos extratos secos retirados dos animais. “Esses extratos é que nos fornecem informações sobre substâncias presentes em macro- e micro-organismos (invertebrados, fungos e bactérias). Assim conhecemos as potenciais possibilidades de suas aplicações na descoberta de novos medicamentos”, afirma.
O pesquisador aponta, entre tantas outras vantagens, uma se refere à criação de microorganismos em laboratório. Segundo ele é possível crescer micro-organismos em reatores de centenas de litros. “Dessa forma, se tem uma fonte renovável para a produção dos meios para se chegar à produção de medicamentos para os quais, se for constatada sua eficácia, pode levar à população novas formas eficientes de tratamento”, finaliza.





Excelente matéria com um dos grandes cientistas do IQSC. Parabéns à Valda Rocha e à Agência CiênciaWeb.