Criado na década de 1980, o Instituto de Estudos Avançados, do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial utiliza tecnologias de ponta para voos ainda maiores
Reportagem: Michel Lacombe
Antigamente, eram mares inexplorados, quase invencíveis. Depois, o espaço, sem começo, meio e fim. O que antes era sonho ou inspiração para contos de ficção científica, agora é realidade, consolidada em projetos que se valem de tecnologias de ponta. E alguns deles farão do Brasil mais uma nação a alcançar o Espaço.
Essa, aliás, é a tendência das Forças Aéreas, segundo o Coronel Engenheiro Marco Antonio Sala Minucci, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEAv), do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), localizado em São José dos Campos (SP). E isso está muito perto de acontecer. “Ninguém vai se resumir apenas em ter sua presença na atmosfera, mas também na órbita terrestre”, afirma.
A responsabilidade de desenvolver boa parte desses equipamentos está dentro do IEAv. Quando foi criado, na década de 1980, o Instituto possuía a função de reunir esforços para o desenvolvimento do programa nuclear paralelo brasileiro, mas a partir do desaquecimento dessa proposta, tudo o que foi desenvolvido na área, como, por exemplo, lasers, óptica, energia nuclear e sensoramento remoto foi destinado a pesquisas nas respectivas áreas e, segundo Minucci, são elas que compõem o leque de atividades no Instituto.
A partir do conhecimento dessas tecnologias começaram a ser desenvolvidos outros produtos. Na parte de sensores, foram criados giroscópios e acelerômetros da fibra óptica para plataformas iniciais, diz o diretor, que essas são importantas para guiar um veículo com um satélite até o espaço. “Na divisão de aerotermodinâmica hipersônica, temos pesquisas que viabilizam o desenvolvimento de futuros veículos satelizadores, que envolvem tecnologia da combustão supersônica e da propulsão a laser, que são conceitos extremamente avançados, que estarão no mercado daqui 20 ou 30 anos”, conta. Além disso, Minucci elenca as pesquisas realizadas para a geração de energia elétrica no espaço através da energia nuclear e o sensoriamento remoto, que permite o desenvolvimento de equipamentos para a observação da Terra.
O diretor do IEAv analisa que, mais do que criar essas tecnologias, incluindo os instrumentos de observação que compõem o equipamento, é necessário também criar meios de levá-los à órbita. Uma alternativa é a construção de caças-supersônicos. “Nesse aspecto o IEAv tem um papel importante que é o de desenvolver tecnologias com acesso e controle do espaço, tanto aéreo ou orbital”.
Em 2013, está previsto o lançamento de uma aeronave experimental não tripulada. Ela tem o nome de 14-x e demonstrará duas tecnologias desenvolvidas no IEAv: a combustão supersônica e sua aerodinâmica. “Na primeira, tentamos queimar hidrogênio, que é um gás extremamente inflamável, com um fluxo de ar que está viajando à velocidade supersônica – os cientistas comparam isso ao problema de se acender um fósforo em meio ao furacão. A segunda diz respeito a sua construção. O 14-x não possui asas. A sustentação, a força que o mantém no ar, é gerada por uma onda de choque que é produzida pelo próprio corpo do veículo”.
Mesmo sem asas, o veículo levantará voo. Para isso, ele será montado em um veículo-sonda, o VSV30, desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço. “O 14-x será o último estágio desse modelo. O outro veículo promoverá a velocidade inicial, vai se separar do 14-x e aí ele vai acender o motor. Pretendemos mostrar com sucesso as duas tecnologias”, ressalta Minucci.
O maior exemplo para o avanço brasileiro rumo ao Espaço vem justamente da figura mais emblemática desse processo: Marcos Pontes. Segundo Minucci, ele não é apenas um exemplo, mas uma quebra de paradigma. “Muito embora o Brasil não tenha construído um veículo que tenha colocado um satélite no espaço, já temos um astronauta. A mensagem desse fato é que, às vezes, nós temos que pensar fora da caixa, ou seja, não podemos ficar presos a paradigmas, existem soluções alternativas. O fato de nós termos o astronauta sem ter o veículo é a prova disso. Nós devemos pensar em outras soluções que não sejam o foguete, mas sim como é o 14-x e a propulsão a laser. O Marcos Pontes é um exemplo vivo desse universo de possibilidades que nós devemos lançar mão”, finaliza.





