A ideia é que computadores, antes usados em máquinas caça-níqueis, sejam transformados e utilizados por estudantes no processo de ensino aprendizagem.
Reportagem: Michel Lacombe
As máquinas caça-níqueis apreendidas no Brasil ganharam um destino muito mais útil e benéfico do que se transformar em sucata armazenada nas inúmeras delegacias do país. O motivo dessa mudança éi o projeto coordenado pelos professores Eduardo do Valle Simões e Eduardo Marques, dos laboratórios de Robótica Móvel e Computação Reconfigurável do Departamento de Sistemas de Computação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP São Carlos, que querem transformar os equipamentos em um instrumento que permita a inclusão digital e facilite a aprendizagem de alunos interessados em buscar respostas.
Com o nome provisório de Centro de Inclusão Digital (CID), o projeto pretende atender, em um primeiro momento, crianças na faixa entre cinco e sete anos. A ideia inicial foi de Adolfo Prequero, coordenador da Procuradoria da República em São Carlos, que conhecia outros projetos de reciclagem de máquinas de caça-níqueis no Brasil. “Ele nos procurou para que déssemos uma finalidade mais prática para elas. Fizemos uma reunião e começamos a pensar em como fazer isso”, conta o professor.
O processo de destruição das máquinas inclui vários perigos. Segundo Simões, as placas de computador são fabricadas com materiais altamente tóxicos para o meio ambiente, principalmente os de dois, três anos atrás. Outro problema apontado pelo professor é o desperdício tecnológico. “São computadores não tão potentes quanto os atuais, pois têm o propósito de jogar, mas, por um outro lado, para uma escola que não tem computador, ajudaria muito”, afirma.
Simões aponta que, se cada máquina fosse disponibilizada em uma escola, o número ficaria reduzido. “Essa distribuição era a proposta original. No entanto, o que acaba acontecendo é que os computadores estragam por não ter quem dê manutenção ou em alguns casos, pelo problema da falta de segurança, o computador fique trancado na escola, e a criança não tem acesso”, explica. O professor ressalta também que ter o computador não é suficiente. É preciso ter uma programação pedagógica que promova o ensino.
Foi então que surgiu a ideia de reunir todas as máquinas recicladas em um único espaço. “Ao invés de pulverizar, acredito que o melhor é centralizá-las em um espaço”. A Procuradoria entrou em contato com outros municípios que fazem parte de sua área de atuação e, em uma reunião, os prefeitos concordaram em ceder um local com a infraestrutura necessária para receber os alunos interessados. ‘Essa ideia foi bem recebida por eles. Dessa forma, consigo centralizar os equipamentos não somem ou ficam semi-utilizados”.
Recuperação
Os computadores apreendidos ainda não foram liberados pela Receita Federal. A partir desse momento, uma série de outros processos serão necessários para que o produto final chegue ao CID. A primeira etapa é a inspeção das peças (hardwares) e programas (softwares) existentes. “As máquinas são diferentes. Vamos começar pelos modelos que aparecem com mais frequência”, alerta Simões. Posteriormente, serão acrescentadas peças que não existam. Para tanto, será necessário desenvolver uma metodologia e treinamento de pessoas através de um curso técnico, o que lhes dariam a possibilidade de serem empregados pelos municípios que possuírem o CID. A ideia é que, após entrarem em operação, todos trabalhem em rede, interligados, e que também possuam internet. Isso também facilitaria a manutenção à distância, que permitirá a atualização ou troca dos jogos instalados.
A composição de uma máquina caça-níqueis é semelhante a de um computador no que diz respeito a hardwares e monitores. “Eles não tem CD-ROM porque não precisam. Para interagir, existem algumas teclas ou mouses. Teremos que colocar teclados e mouses. Estou pensando em usar o próprio “console” [caixa na qual estão instalados os equipamentos] da máquina como suporte, porque as mesas são caras”. Na parte de sistema operacional, será necessário utilizar um livre, menos exigente em recursos e mais robusto na parte de segurança.
Esse processo não engloba somente a área de computação, mas também outros ramos do conhecimento. O projeto facilita a interação entre as Ciências Exatas e as Humanas, para o desenvolvimento de ferramentas didáticas, através do desenvolvimento de um ambiente que integre hardware e software, além da formação de equipes de trabalho, envolvendo professores, técnicos e estagiários, tanto da USP como da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), somado ao desenvolvimento de robôs educacionais.
Desse ponto, forma-se uma cadeia de ensino, que passa tanto por alunos das escolas como os de graduação. Segundo o pesquisador, o projeto se auto-sustenta, já que tom um corpo maior do que a reciclagem de máquinas. “Precisamos trazer a criança para um sistema de criação no qual resolver problema seja divertido. É preciso usar o desafio para crescer, aprender e competir, porque a criança não sabe mais o que é isso. Essa motivação é perdida no processo de educação moderna e ela não opina mais sobre o que quer ser”.
Além de buscar financiamento do projeto através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Simões pretende buscar patrocínio de empresas, como a Microsoft e a Intel, fundações como a Bradesco, a Ayrton Senna e projetos sociais como o Criança Esperança. O objetivo dessas parcerias será o de conseguir acordos de cooperação para o fornecimento de licenças de software, computadores para serem servidores e material de apoio ao ensino de informática.





