Reportagem: Fernanda Vilela
Um grupo de teatro formado por estudantes dos cursos de Física, Física Computacional, Ciências Físicas e Biomoleculares da USP e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) vem mudando a forma como a divulgação científica é feita em escolas. Unindo arte, ciência e entretenimento, o Atuando em Psi apresenta peças que contam histórias de grandes teóricos e a importância das ciências naturais no dia a dia.Membro do grupo desde 2010, o estudante de Física Computacional Felipe Dreilick, conhecido como Manivela, explica que o Atuando em Psi foi formado em 2008, quando o aluno de licenciatura em Física Tiago Nadim, o Foca, era secretário cultural do Centro de Estudos de Física de São Carlos (CEFISC). “Ele pensou em criar o grupo de teatro, reuniu dois amigos e começou a escrever a primeira peça”, diz.
O estudante escreveu então a peça Principia Theatru, uma epopéia do cientista na Terra que usa humor e paródias de cenas históricas. O grupo usa o trabalho para apresentar o ambiente de um aluno de Física no ensino superior, como uma forma de recepcionar os calouros que chegam ao curso. “Essa foi a primeira peça do Atuando em Psi, que foi a única até mais ou menos 2010”, explica Dreilick.
Porém, após algumas apresentações, Dreilick conta que o grupo começou a perceber que aquela não era a melhor forma de fazer divulgação científica. “Conforme nos apresentávamos e nos reuníamos, percebemos que a própria divulgação científica estava sendo deixada de lado e nos tornamos um grupo de comédia feita por físicos, ao invés de um grupo de divulgação científica, que era o nosso objetivo principal”.
O grupo então reformulou e escreveu novas peças, pensando no público alvo, que vai de adolescentes a universitários. “Nossa maior preocupação no grupo é a certeza de que não estamos subestimando o aluno. Então, nós não vamos dar uma aula, não vamos com a proposta ‘aprenda isso e já saia sabendo’”, explica Dreilick.
De acordo com o estudante, a proposta é criar um ambiente propício na escola para que a peça seja apresentada de forma leve, sem se pautar no conteúdo da matéria, estimulando a curiosidade do aluno. “É óbvio que o aluno não vai pegar todas as informações da peça, mas a ideia é que ele consiga retirar algum conhecimento daquilo, para que depois, em sala de aula, com o professor, ele consiga desenvolver melhor os conceitos e crie um ponto de vista crítico, um raciocínio a respeito daquilo”, diz.
A peça mais recente do grupo, escrita por Dreilick, é a Big Bang Brasil, uma paródia do Big Brother. A obra tem dois focos, o palco, onde fica a maior parte dos atores, e o público, onde fica o ator que interpreta o apresentador Pedro Bial e os espectadores. O trabalho aborda a origem do universo e envolve conceitos de cosmologia. “Começamos com um debate entre Einstein e Newton, o primeiro defendendo a teoria da relatividade e o segundo indo contra. Eles começam a brigar e o Bial interrompe, dizendo que aquilo foi um flashback da semana anterior, antes de Newton ser eliminado da casa, pois a teoria dele não era eficiente”, conta o estudante.
No final da peça, baseado nos argumentos dos cientistas encenados, Bial propõe à platéia que vote para decidir qual teórico define melhor a origem do universo. Portanto, o fim da história é decidido pelos alunos.
Dreilick explica que, para manter as peças sempre atualizadas e o grupo em harmonia para desenvolvê-las, o Atuando em Psi se reúne duas vezes por semana para os ensaios. “Durante mais ou menos meia hora fazemos uma dinâmica e aquecimento. Depois partimos para os ensaios. Muitas vezes, esses ensaios são para passar as falas e outras vezes, para discutir o futuro do teatro”.
“É um desafio muito grande unir arte e ciência. Quando você deixa de colocar a ciência em um pedestal e a arte em outro, você mantém o equilíbrio entre as duas coisas”, conclui Dreilick.